filmes brasileiros.

10 11 2009

Esta semana teve uma promoção, que acontece anualmente, do cinemark. Filmes brasileiros por R$ 2,00. Ainda uma pipoca pequena e um suco pelo mesmo preço.

Havia dias que estávamos esperando este a promoção. Eu Lella gostamos muito de ver filmes. Com o passar do tempo aprendemos a apreciar os filmes brasileiros. Em nossa lista constam os mais conhecidos como: O que é isso companheiro, O homem que copiava, Meu tio matou um cara, Olga, Cidade de Deus, Carandiru, Tropa de elite, Cazuza, Central do Brasil, Auto da compadecida, até os mais desconhecidos pelo público geral: O dia em que meus pais saíram de férias, Cinema, urubus e aspirinas, Batismo de sangue, Madame satã, Casa de areia, um copo de gelo e dois dedos d’água….. tem outros que me fogem a memória agora mas que se incluem na lista, não menos importantes e saborosos, mas em anonimato forçado por meu cérebro.

Comentamos com algumas pessoas nossa espera pelo dia da promoção e como estávamos animados com a possibilidade de vermos alguns longas brazucas por um preço tão pequeno. Notei que a maioria das pessoas torcem o nariz para filmes brasileiros. No geral comentam: -ai! não gosto de filmes brasileiros. Tem muito apelo sexual, ou muita violência gratuita e normalmente a trama não tem qualidade. Está muito atrás dos filmes americanos…(!) Apelo sexual? violência gratuita? enredo fraco?! não são basicamente essas coisas que os filmes americanos produzem?!

Cheguei a conclusão que nós estamos tão acostumados a comer Mac’Donalds que preferimos pagar o olho da cara por eles do que pela metade do preço comer uma boa feijoada de sábado no buteco do zé. Simplesmente por que cremos que é sujo, mal frequentado (como se o Mac’Donaldol não fosse). ah! mais o preço né..muito barato…da pra desconfiar da procedência. Melhor o cuspe caro que água de graça.

Estranhamente nos apegamos a idéia da pornochanchada da década de 70. Naquele tempo não se podia fazer filmes com inteligência porque a censura vetava. Criou-se uma prisão mental da qual muitos ainda hoje estão presos. Adoramos as novelas que enchem o horário nobre com um monte de porcarias (dizem que é apenas o reflexo de nós mesmos), vibramos com a música pop enlatada vendida as montes nos países de terceiro mundo (nessa lista estão o gospel, o brega, o pagode genérico e a música gringa para viciados em anfetamina). Deliramos com os programas cópias gringas com se nós os tivéssemos inventados. Pobre dos filmes brasileiros que tentam respirar nesse mar de lama…

Os brasileiro se esqueceram de quem eram antes da ditadura. Se esqueceram da tropicália, da mpb raíz, do cinema psicodélico de 67… de fato a ditadura fez de nós meros consumidores de qualquer coisa que nos dêem, contanto que seja fácil mastigar e engolir.

Bom, desabafo a parte, fomos ao cimena e felizes da vida, gastando apenas R$ 16,00 reias os dois, com pipoca e tudo, vimos dois fimes: Budapeste (adaptação do livro de Chico Buarque) e Jean Charles ( baseado na história real do brasileiro morto em Londres, confundido com um terrorista).

Palavras ficam confusas pra tentar explicar a sensação de assistir Budapeste. Tem uma coisa em sua trama que fica martelando na cabeça mesmo depois de o filme terminar. Você não sai do cinena com uma conclusão sobre o filme. Você leva o filme consigo juntamente com todas suas perguntas. E a vontade de ler o livro.

Já Jean Charles, tem uma dramatização  exata do que é o brasileiro em qualquer lugar do mundo. No fim do filme fica difícil conter as lágrimas ao perceber que poderia ser você na situação. Sem dúvida tanto um quanto o outro, esses filmes mereciam ter recebido mais que R$2,00 para serem vistos.

Porém fico feliz pelo apelo do incentivo a toda arte brasileira. Como brasileiros devemos reaprender a valorizar nossa cultura, opiniões e jeito. Anda temos muito que aprender com os americanos nacionalistas da qual não gostamos. Mas temos que continuar com a humildade e alegria africana, herdada dos que perderam sua vida no chicote. Talvez por esses e somente esses, deveríamos amar  mais quem somos e respeitar mais a pátria que nos pariu. E não percam os próximos filmes que vem por ae….Lulla, Besouro e Tim maia!

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Dia dos mortos.

3 11 2009

Ontem foi o dia em que lembramos os que já se foram. Muitas pessoas vão aos cemitérios trocarem as flores murchas sobre os túmulos por outras novas e coloridas e arrancam o mato à sua volta. Ironicamente enchem o cemitério com vida!

Acho um pouco estranho tudo isso. Na verdade não estamos indo ali para prestar uma homenagem aos que morreram. Talvez seja mais honesto dizer que vamos ali “matar” a saudade da melhor maneira possível. É claro que para alguns é quase apenas um ritual. No geral se leva flores, limpa-se o túmulo e gasta-se uma meio hora em frente a lápide orando, chorando ou simplesmente em  silêncio, pensando ou lembrando os momentos marcantes do que agora é osso e pó.

Quando penso em morte, lembro da afirmação do Cristo sobre a necessidade de negarmos a nós mesmos, tomarmos a cruz e o seguirmos. Ainda segue dizendo que se alguém quiser salvar sua vida irá perde-la mas quem perde-la por Ele a encontrará. Termina sua sentença perguntando: – Do que vale ganhar o mundo inteiro e perder sua alma?!

Aí está uma pergunta interessante para pensarmos. De fato filosofar sobre esse tema pode levar-nos a várias conclusões. Negar-se a si mesmo é muita mais do que pensar: “não me quero mais!” como um hedonista arrependido. Talvez seja algo como abrir mão de tudo aquilo que penso ser  fundamental para o que eu  penso ser importante. Um carro melhor, uma roupa da moda, aquele celular moderno, uma Tv de plasma com muitos canais ou uma carreira brilhante. Enfim, algo que destaque o sucesso individual. Negar-se essas coisas talvez não fosse viver o avesso disso. Poderia ter-se todas essas coisas e ainda assim nega-las, não como quem joga fora um raro vaso chinês mas como quem o põe no canto da sala apenas como um artefato curioso. Falo isso porque não penso que Deus queira que sejamos pobres. O problema é que quando temos muito nos tornamos estranhos e nos afastamos d’Ele. Por isso que Cristo exalta os pobres junto com os humildes. Não é o que você tem mas como você usa o que tem.

A maior representação de humildade que vi na vida foi quando morrei na baixada fluminense. Durante o tempo que fiquei por lá, morava num casa sem luz, sem aguá e de móveis, um sofá velho, um rack podre e um guarda roupa aos pedaços(dormia em dois pedaços de espuma) As pessoas à minha volta não tinham muito mais do que isso. Mas nunca deixaram de dividir comigo comida, aguá, luz e acima de tudo, vida.

Li recentemente num livro (a arqueologia dos prazeres) que o verdadeiro prazer está em ser satisfeito com o que tem. Com muito ou pouco, a ambição pode trazer insatisfação mesmo para o cara mais rico do mundo. Creio que negarmos a nós mesmo pode significar  aprendermos a usufruir do que temos aqui e agora, deixando de alimentar aquele velho desejo que ter sempre mais. Isso não quer dizer que não devemos sonhar ter mais coisas na vida amanhã do que temos hoje. Significa curtirmos o que temos hoje ao invés de ficarmos na expectativa do que pode vir amanhã.

Pode parecer estranha essa analogia, mas pra mim isso é tomar a cruz. Não é fácil vivermos dessa forma. Porque no fundo queremos ser como os grandes conquistadores, que em algum momento da história foram os maiores de seu mundo. Negar isso é trocar a glória sonhada pelo desdém evitado. É ser o escravo na senzala e não o dono dela. Porém entender isso é ser um escravo que  serve alegremente ao seu senhor. Isso me faz pensar em outra pergunta: Quem é mais escravo? o homem que vive para o seu trabalho e seu alvo é ganhar o mundo ou o homem que trabalha porque vive e seu alvo é a vida em si?

Jesus Cristo é um exemplo e ser seguido por que era um homem que entendia que a vida é muito mais simples do que parece (estou propositalmente desconsiderando sua Divindade óbvia para que possamos ve-lo do ponto de vista puramente humano.) Como homem soube viver com o que tinha e desfrutar disso profundamente. Isso não tirou dele sua dignidade e muitos ouviam o que Ele dizia porque havia sabedoria em suas palavras. Era visível que seu discurso destoava do discurso dos fariseus e que seu estilo de vida era diferente  deles. Jesus veio mostrar como a vida pode ser completa de gozo em qualquer circunstância, se nessa vida estivermos nos relacionando com a fonte da vida-Deus. Como homem foi um grande profeta como nenhum outro foi porque morreu por aqueles que creram e os que não creram nele. Como Deus é o único que se humilhou para que o pudéssemos entender um pouco melhor, dando em si o exemplo de negar-se a si mesmo, tomar sua cruz e seguir em frente. Jesus se parece mais com o escravo feliz em servir do que com o dono da senzala.

Ganhar o mundo pode não ter em sua essência como resultado perder a alma. Seria dizer que se você come muito doce com certeza vai ter diabete. O que acontece é que normalmente quando alguém “ganha o mundo” se torna um pessoas diferente. Um homem que possui algo que os outro não possuem. Alguns chamam isso de realeza natural. Eu chamo isso de ego inflável.

Como nosso corpo, por mais que seja uma complexa e incrível invenção, não tem a capacidade de inflar como o ego faz, num determinado instante, acaba sendo pequeno para guardar o ego e a alma, tendo que abrigar um e se desfazer de outro. Essa escolha quase sempre é fácil para o corpo, pois é visto que o ego infla quando o corpo recebe o crédito por tantas conquista. Já a alma pouca serventia tem, afinal, a sabedoria do mundo mora no cérebro e quem a possui, não vê necessidade de ter qualquer outro tipo de sabedoria. Com isso, de malas prontos, a alma abandona o corpo e leva consigo qualquer consciência da pequenez da vida diante a grandeza do cosmo e seu Criador-Deus. Abraçamos o super homem de Nietzsche enquanto crucificamos o homem Deus.

Uma vez a que a alma abandona o corpo, um corpo sem alma é um corpo morto. Pode não ter consciência disso (pois a consciência a alma levara),mas anda por ai como um corpo vivo, que pensa com a sabedoria do mundo e cujo seu vazio o ego ocupa.artmarketwatch5-15-3 Porém a vida que somente uma alma pode ter, essa o corpo não possui mais. Sendo assim quando vemos games, ou filmes como “Resident evil”, a personagem com a qual nós deveríamos nos identificar mais, são os zumbis e não os mocinhos.

Quando alguém perguntou a Cristo se poderia antes de segui-lo, enterrar seu parente, Ele diz categoricamente: ” deixe que os mortos enterrem seus mortos”. Existe algo nessa afirmação que se completa com a outra citada acima. E a pergunta continua a soar. O que vale ganhar o mundo e perder alma? Do que vale ter tudo que sempre quis e morrer sem experimentar satisfação plena?! do que vale estar vivo usando a vida para ter tudo e morrer antes de poder conseguir isso? o que é a vida senão a ante-sala para a morte? vale a pena correr atrás do vento? ajuntar um tesouro que não se leva consigo em morte?  perguntas que se pode fazer quando se visita um túmulo….

No fim, tenho a impressão de que quando visitamos o cemitério, trazendo flores e vida, e diante das lápides ficamos contemplando o que o futuro certamente trará, do outro lado existem almas alegres de alguma forma livres do peso do mundo, cheias da sabedoria divina, felizes em sua realidade contemplando cadáveres em pé diante delas, cheios de ego, medos, pecados, dúvidas e dogmas.

(D.Distler)