A gente é o que a gente come.

18 09 2009

Quando eu era criança, lembro que em inúmeras vezes, minha mãe me chamava  para uma tarefa da qual eu não apreciava muito: Escolher arroz. Naquela época, no interior de Santa Catarina, não havia como hoje há, aquele arroz que vem pronto para ser posto na panela. Tanto arroz como feijão ou qualquer outro tipo de grão necessitava de uma minuciosa pré-seleção antes de ir ao fogo. Recentemente eu e Lella ganhamos numa cesta básica, um pacote de arroz que também requeria esse ato de paciência e determinação. Algumas vezes por pressa, fome ou falta de entusiasmo, a escolha desse arroz fora feito de forma relaxada, tirando apenas a sujeira mais dramática, acreditando que o cozimento se encarregaria de  limpar as demais impurezas.

Pensando nessas coisas, percebi que em nossa vida muitas vezes comemos arroz sem escolher,na expectativa de que o tempo assuma a responsabilidade de remir os indesejáveis grãos que por ventura engolirmos e toda sujeira indigesta ser depositada no intestino do esquecimento. Algumas vezes temos o cuidado de iniciar uma pré-seleção de grãos. Porém durante o processo nos damos conta de como isso pode ser trabalhoso e demandar tempo assim como se tornar um exercício fatídico de repetições que alguns podem entender como disciplina. Como nem sempre temos tempo pra isso (entenda-se tempo por interesse), terminados essa árdua tarefa pela metade,deixando passar algumas carunchos.

Ao encararmos esse arroz como sendo nossos pensamentos, essa interpretação se torna ainda mais clara. Quantas vezes fugimos da responsabilidade de pensarmos ou repensarmos nossos valores como quem tem pressa pra comer logo, pois a fome (ou vazio) fala mais alto que o gosto da comida ou seu conteúdo nutritivo. Deixamos assim sermos enchidos, independente do teor que adentra nossas estranhas mentais, por vezes atrofiadas pela falta de exercícios. Assim como caráter não é forjado na tribulação mas sim apenas revelado, nossos pensamentos não se formam durante a discussão, apenas se revelam puros ou não.

Portanto, felizes são aqueles que com paciência e determinação escolhem bem o arroz que comem. Sem pressa e com precisão usufruem do prazer e a certeza de que o mais importante não é chegar ao fim da estrada, mas se manter reto nela. Assim como o apressado come cru (ou come sujeira), o precipitado cai no precipício porque não sabe esperar o ponte ficar pronta.

Agora a pegunta que cabe a nós responder a cada dia: você já escolheu seu arroz hoje?

D.Distler





O dom a amizade.

9 09 2009

  

O Dom da Amizade – Tolkien e C.S. LewisImagine um mundo sem “O Hobbit”, “O Senhor dos Anéis” e “As Crônicas de Nárnia”. Aliás, imagine também um mundo sem nenhum dos inúmeros livros, filmes e RPGs que essas obras clássicas inspiraram. Bem, assim seria o mundo caso J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis não tivessem sido amigos do peito.

 

Não é segredo para ninguém que esses dois britânicos, ambos pesquisadores acadêmicos e amantes da literatura fantástica, além de escritores de talento, só conseguiram produzir suas próprias obras seminais de fantasia graças à inspiração que deram um ao outro. Essa parceria, no entanto, esteve cheia de altos e baixos, tapas e beijos, e não chegou exatamente intacta ao fim da vida dos dois.

O jornalista e professor britânico Colin Duriez conta essa história fascinante, combinando-a com o desenvolvimento dos universos de ficção da dupla, no livro “O Dom da Amizade – Tolkien e C.S. Lewis”. Não se deixe enganar pela capa não muito imaginativa (enfiaram uma mata cheia de névoa e a imagem de um leão para representar a dupla de escritores). A leitura compensa – em especial para o fã de Tolkien, que tem a chance de conhecer melhor Lewis, hoje menos popular que o Professor por aqui, mas igualmente relevante e instigante.

Acompanhar a trajetória dos dois equivale, em parte, a seguir a história européia do século 20. Os dois perderam parte da família muito cedo e foram marcados, na juventude, pelo impacto devastador da Primeira Guerra Mundial (Tolkien e Lewis foram para o front no continente, e o segundo chegou a ser ferido em combate). Chegaram à idade madura debaixo da sombra dos regimes totalitários e da Segunda Guerra Mundial, e tiveram boa parte de sua visão artística e filosófica moldada por esses eventos.

C. S. LewisA dupla também teve em comum, desde cedo, a paixão pela mitologia, em especial a do norte da Europa, mas as semelhanças terminam aí. Enquanto Lewis se tornou um leitor eclético, capaz de acompanhar dos clássicos da Antigüidade greco-romana aos romances modernistas (embora decerto não gostasse muito desses últimos, em geral), Tolkien foi adquirindo um gosto cada vez mais específico, dedicando-se a aprofundar sua compreensão sobre o inglês antigo e o inglês médio, falados e escritos antes do ano 1400.

Fé e razão
Quando ambos chegaram à idade adulta, outro abismo havia se imposto: enquanto Tolkien tinha quase todos os aspectos de sua vida e pensamento definidos por sua profunda fé católica, Lewis tinha se tornado ateu. E assim poderia ter permanecido caso o erudito, nascido na Irlanda do Norte, não tivesse conseguido um cargo na Universidade de Oxford em 1925 – exatamente o mesmo ano em que Tolkien foi aceito como professor na prestigiosa instituição.

Não demorou muito para que os dois se conhecessem e se tornassem amigos, com interesses comuns sobrepujando as diferenças que existiam. E foi por meio de longas conversas e debates com intelectuais de sólida fé religiosa, como Tolkien e Owen Barfield, que Lewis começou a passar por uma virada em suas próprias opiniões sobre a crença em Deus.

O “gancho” usado por Tolkien – depois explorado no belo poema “Mythopoeia”, cuja tradução comentada pode ser baixada aqui na Valinor – tinha justamente a ver com os mitos. Lewis tinha se acostumado a pensar na mitologia como um conjunto de belas mentiras. Tolkien ia justamente no sentido oposto: a presença de elementos parecidos nos mitos do mundo todo indicaria uma verdade fundamental sobre o homem e o Universo. O nascimento, morte e ressurreição de Jesus Cristo teriam justamente incorporado esses mitos fundamentais, como se eles tivessem “vazado” para o mundo real. Deus era o maior dos criadores de mitos, o maior dos contadores de histórias.

Lewis, de fato, acabou se convertendo, tornando-se um cristão ardoroso, embora não um católico, como desejava Tolkien. E essa visão compartilhada sobre o caráter sagrado da fantasia e da criação de histórias passaria a guiar o trabalho dos dois e de seu círculo de amigos, os chamados Inklings, que se reuniam para ler suas novas obras e discutir todo tipo de assunto na Oxford dos anos 1930 e 1940.

Foi nesse círculo de amigos que Lewis encorajou Tolkien a concluir “O Senhor dos Anéis”, chegando a comover-se até às lágrimas com os capítulos da saga. Uma aposta entre os amigos – um deveria escrever uma história de viagem no tempo e o outro abordar uma viagem no espaço – também deu origem à história de Númenor (sim, até então só havia a Primeira Era de Arda) e à chamada Trilogia Espacial de Lewis, respectivamente. Aliás, o filólogo Elwin Ransom, herói da Trilogia Espacial, foi inspirado, em parte, no próprio Tolkien.

Mas nem tudo eram flores no relacionamento entre os dois grandes amigos. O primeiro pomo da discórdia foi o malucão Charles Williams, outro autor de romances fantásticos cuja obra fascinava Lewis mas deixava Tolkien com o pé atrás, por causa do interesse de Williams pelo ocultismo e de seus textos quase ininteligíveis. William veio morar em Oxford, passou a freqüentar as reuniões dos Inklings e gerou uma certa ciumeira em Tolkien.

J. R. R. TolkienOutras diferenças pessoais e literárias vieram criar tensões na amizade da dupla ao longo do tempo, como a falta de compreensão de Tolkien com o mundo de Nárnia (ele achava que Lewis não estava levando a mitologia suficientemente a sério em sua nova criação) ou com o papel de Lewis como um teólogo popular, tendendo explicar a religião cristã “básica” para as máquinas. (Como católico, Tolkien parecia acreditar que Lewis não era exatamente o homem mais indicado para esse serviço.)

Quando Lewis morreu, em 1963 (cerca de dez anos antes do Professor, portanto), fazia vários anos que a velha dupla não era mais tão próxima, vendo-se muito pouco. No fim das contas, porém, as diferenças que sempre existiram e que às vezes se aprofundaram nunca foram suficientes para submergir seu legado: o de uma tradição rica e poderosa de fantasia moderna, que talvez mantenha viva a chama da mitologia que eles tanto amavam por séculos a fio.