O otimismo irracional é a única forma de otimismo concreto, pois o otimismo racional, tende por equilibrar o que é bom e ruin, a ponto de nos acomodarmos entre os dois.
Já o irracional faz com que o homem comum possa odiar o mundo o bastante ao ponto de querer muda-lo e ama-lo o suficiente para crer que a mudança valha a pena.
Nesse ponto, o otimismo versus pessimismo equivalem ao mártir versus o suicida, já que o mártir morre por seu propósito , ligado diretamente a preocupação com o mundo que o cerca enquanto o suicida morre justamente pelo oposto. Seguindo a analogia, são muitos os suicidas….
Ora, nossa crença está em algo muito superior às coisas desse mundo. Porém é nesse mundo que vivemos. Isso exalta o fato de estarmos em “casa” nesse mundo e ao mesmo tempo sentir-se longe dela.
A beleza está em nos mistérios e coisas que não entendemos. Uma baleia, antigamente era um assustador e gigantesco mostro marinho que assombrava os pensamentos dos marujos em alto mar. Hoje não passa de um dócil mamífero grande que vive nele. As coisas perdem sua beleza quando perdem seu mistério.
Andamos um pouco indiferentes com o mundo, porque estamos desvendando (ou tentando desvendar) todos seus enigmas. Na crença que ,entendendo melhor, amaremos melhor, passamos a desprezar-lhe como uma criança faz com o brinquedo que não lhe aguça mais o interesse.
Toda essa racionalidade tem nos tornado tão céticos, que o pouco amor que resta em nós, não faz muita diferença. Quando amamos uma coisa por suas qualidades também a odiamos por suas falhas. Esse equilíbrio acaba nos amortecendo. Pois nos limitamos ao que nos interessa e evitamos todo o resto. Sem perceber passamos a amar a beleza do mundo e ignorar toda maldade que existe nele. Não há mais mistérios. Não há mais enigmas. Sabemos exatamente o que estamos fazendo e fazemos de olhos fechados. Tudo no completo equilíbrio da razão. 
E quanto ao amor que transcende essa razão?! O amor maior que a maldade e por sobre ela?! O amor incondicional e acima de tudo, misterioso?! Este só é encontrado por aqueles que triunfam sobre todo racionalismo, todo equilíbrio e controle e aos que passam a depender de um fé louca em coisas que ainda não se vêem, mas se esperam. Encontrado naquilo que é confuso como imagem distorcida no espelho e ao mesmo tempo claro como o sol. No que revela nossa fraqueza e nos torna forte por meio dela. Que nos faz perder a vida para que a encontremos. No entendimento de que o homem é só um sopro. Um palmo de vida em uma eterna e misteriosa mão e que toda sabedoria se fez louca para enganar os sábios. Ou em um mestre que morre como ladrão e ressuscita com Rei. Ou ainda num conto de fadas, em que toda lógica é questionável e a salvação depende de tomar uma decisão ou jamais tomá-la. Enfim no misterioso espaço que há entre o que vemos e o que um dia veremos, crendo com um otimismo irracional e munidos de todas essas coisas, podemos navegar tranquilos no infinito mar da imaginação até chegarmos numa nova terra e num novo céu.
D.Distler (meditações sobre o livro Ortodoxia)